Janelas fechadas e mentes abertas

Cheguei no Ateneu, depois de passar o primário no Colégio de Aplicação e tudo era encantamento. O relacionamento com os professores, a abertura ao diálogo, o pátio de terra batida cheio de búlicas de bola de gude (Marraio... sou rei), as aulas ao sol.

Zeca desenhava, no quadro, o mapa mundi e explicava os interesses econômicos da “descoberta” do Brasil e nos falava das expedições de Pinzón e eu percebia minha mente expandir em curiosidade e revelações, muito diferente de decorar datas e nomes que era o que eu conhecia de História até então. Doris nos ensinava os problemas da poluição industrial mas nos lembrava que a calça Lee que tanto gostávamos vinha da indústria, transmitindo a mensagem de consumo sustentável, antes do termo sequer existir. A ela agradeço por não ter começado a fumar, numa época em que as propagandas de Hollywood nos incentivavam “ao sucesso”. Ela transmitia nas aulas de Ciências e de Saúde o real conceito de cidadania, sem moralismo, nos convencendo a pensar em nossas decisões. Com Dentinho, Matemática e Geometria eram simples e se relacionavam. Ainda hoje, com tantos esforços e reformas sucessivas, são ensinadas desintegradas.

Não Themis, definitivamente, a qualidade do ensino não estava em segundo plano. Em tempos de ditadura, nos davam voz e abriam nosso pensamento. Isso era qualidade de ensino.

Estudamos no Ateneu de 1972 a 1978, mas em 75 mudamos para o EPA, onde a nota 10 era formada por 6 (comportamento) + 4 (nota da prova), então quem ficava mudo na sala garantia média para passar. A gente vinha de uma cultura participativa e Patrícia Caminha e eu fomos suspensas de sala muitas vezes porque não conseguíamos nos adaptar à nova escola. Após um ano de vãs tentativas, minhas irmãs e eu voltamos felizes para o Ateneu. Professor Ronaldo, nessa época, conseguiu um convênio com o antigo curso Burrowes e por isso estudei inglês lá, num tempo em que Petrópolis tinha apenas três cursos de inglês – todos para poucos. Passados 10 anos, após casamento e divórcio e de volta a Petrópolis, entrei no Hamlet e, de uma colega de curso, soube que tinha uma vaga para o setor de Exportação da Dentsply. Tentei a vaga e, graças ao inglês, passei. Enquanto estava no departamento pessoal com outras candidatas a outros cargos encontrei uma antiga colega do EPA (nota 6 garantida todos os anos) que também havia conseguido uma vaga. Ia trabalhar como temporária, lapidando dentes na produção. Nada contra o cargo, meu melhor namorado era motorista de caminhão, mas me senti vitoriosa naquele dia. Tinha conseguido uma vaga muito melhor. Vitória de nosso sistema de ensino, de ousadia e inovação e o Professor Ronaldo, hoje, aqui nesse grupo de loucos resgatados pelo Themis, pode sentir mais uma vez essa boa alegria de ter participado de histórias que sequer imaginaria. Obrigada professor.

Adelia Di Buriasco
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2 comentários:

  1. E em 1975 eu e você nos esbarramos no recreio na inocencia de nossos 12 e 13 anos, virou rotina sentarmos no pódio da quadra ou nas floreiras em frente às salas, as cocheiroas(!), e bater papos sobre a vida. Um dia tocou o sinal como ocorria todos os dias, até que num parece que demorou mais um pouquinho o tempo né Adélia? Mas foi rápido! Já estamos de volta! Pegamos o fio da meada e velhos-novos amigos, aos 50, carregando os meninos juntos, claro, paramos nossas tarefas vez por outra e em estado de Ateneu, sentamos nas suas cercanias, da memória que sabemos de cór e... Onde paramos mesmo querida...?

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