O Ateneu


O OPOSTO DO DE POMPEIA

Para um reino de conto fadas nada melhor que um palácio suntuoso e um pátio e jardim de fazer inveja às escolas particulares dos riquinhos e seus tenis All Star importados. Nenhum recalque, apenas contra defesa à sociedade, pais deles, que torciam contra um projeto inovador e ousado que nascia no princípio dos anos 70, o Ateneu - Ensino Integrado. Fundado por Ronaldo Simão trazia junto a austríaca, Dona Beatriz, senhora de olhos belos, severa e doce numa alternância positiva para lidar com o que seria uma legião de alunos marginalizados. E é verdade, lá ninguém era reprovado, havia os pontos extras de quem participava das atividades que compensavam as nossas notas vermelhas. Tá errado? Sim. Mas lá não e pronto! O Colégio Ateneu abrigava os desajustados de todo tipo: os que tinham problemas com os pais, os que tendiam às drogas, os problemáticos, enfim, aqueles que normalmente iam para os internatos de outras escolas a preços muito altos. O Ateneu cobrava barato, dava acesso também a uma classe média mal remediada, pais que queriam colocar seus filhos em escolas particulares e não podiam pagar. Sem dúvida que tudo isso também era um mote para angariar alunos e enfrentar a concorrência. Pois se tratava de um negócio, apenas que com grande dose de ideologia utópica.

Utópica sim, mas possível. Saíram a dona Beatriz e a Miriam Almeida, perdas irreparáveis e o sonho, a ideologia não passou de uma aventura, magnífica aventura que haveria de se perder no caminho, daí o Ateneu só durar 10 anos. Muitas bolsas conveniadas com deputados e a perda do controle da situação na difícil tarefa de não transformar liberdade em libertinagem e, sobretudo, conter a pressão de fora cometida pela elite hipócrita da sociedade imperial petropolitana, até hoje bem mais conservadora do que as das outras cidades de médio porte do país. Porém passados mais de 30 anos, de um sonho que acabou, só me cabe exaltar as coisas boas, as pessoas especiais, abnegados empregados, brilhantes professores e uma legião de alunos muito bacanas desde os desajustados aos normais.

Do palácio - que leva com justiça o nome de Sérgio Fadel, mas só consta em sua história o seu construtor, o Barão de Catete e a sede da Prefeitura - conheço de cor cada canto e me faço meio Duque de Araque, pois que vivi lá 15 anos entre o primário no colégio São José, o Ateneu e dois governos municipais. Juntando o período em que pertencera a Cia. Santa Matilde, depois da escola, há um "hiato sinistro" que nossos historiadores não contam sobre o prédio. Seja quem for que lá habitou e habita, as salas de aula do térreo e hoje repartições, todos habitaram mesmo em cocheiras, como seus ancestrais, os equinos.

Havia o turno da noite, mas pouco sei, pois era criança ou adolescente. Só imagino que os salões gigantes dos 3 andares do anexo deviam juntar muitos alunos de baixa renda, trabalhadores que não podiam pagar colégio e que tinham suas vagas nos públicos tomadas por alunos indicados por vereadores e deputados, aqueles moleques que eternamente vimos estacionar suas motos nos arredores.    No Ateneu, todos juntos se impregnavam de um espírito de liberdade incomum, de cumplicidade, pois que não havia discrepâncias sociais gritantes. Os arredores privilegiados da escola iam dando asas a muita imaginação, explodindo criatividade, das crianças aos adultos e era um festejo de artes e invenções extracurriculares. A aula de educação artística tinha uma mesa enorme lotada de materiais: tintas, pinceis, papel à vontade. Este ponto foi a marca positiva do Ateneu, se a qualidade do ensino e a discilplina ficaram em segundo plano, a formação do caráter no desenvolvimento do indivíduo, onde cada um era alguém, e a paz do convívio, fizeram grandes pessoas humanas, o desabrochar de seres tolhidos em si mesmos e regenerando muitas almas carentes e negligenciadas.

Emblemáticas eram as manhãs de outono no Ateneu, numa época em que o frio em Petrópolis castigava para valer. Virou hábito professores e alunos pegarem as coisas na sala: carteiras, lousa móvel e materiais e irem para o pátio fazer aulas ao calor suave do sol, com os pés na terra batida, rodeados de pinheiros e magnólias.

Das tias Isabel Moscoso, Sheila Ayres, dona Léia e Terezinha Ibiapina até o Professor Zeca e o Zé Roberto, um secarrão e outro espirituosíssimo sacana, dois magníficos professores da nossa cidade. E Luís Paulo com seu inglês, veia de ator e músico com seu violão cantando Beatles e Stones com a galera em clima de altíssimo astral.  Tinha o Tobias e a Rita da Kombi.. Depois seu Antônio, muitos camaradas.

Havia a magia da capela que era usada para dança e teatro de crianças e adultos, lá rolava arte e criatividade sem fim. Rosa Muller emprestava seu talento no balé e sua beleza que deixava até os mais sãos doidões. Doidões que fumavam maconha no morro, belo morro no fundo do pátio meio que fingindo ser escondido, já que era feita vista grossa pela direção o que de fato se fosse proibido, só pioraria o estado dos que necessitavam daquilo. E foi nessa que o Ateneu ganhou a fama de "colégio de maconheiros".  Nos intervalos havia os rachões. Peladão de “trocentos" rapazes para cada lado, camisa contra sem camisa, ia entrando quem quisesse. Pegávamos as traves da quadra e colocávamos o mais longe possível nas extremidades do pátio e valia entrar dentro de sala de aula para disputar a bola se ela fosse para lá. Depois tínhamos que tomar crush ou laranjinha na cantina do Seu Gomes, dona Guiomar e Luizinho, gente humilde de grande bondade que o Ronaldo contemplou com o espaço para ganharem a vida em ato de grande generosidade.

A quadra de futebol era também espaço disputado. Nas peladas do dia a dia víamos craques veteranos da bola como Alan Suenson, o Ernesto e as “revelações” como o Urco, o Ronaldo, o Claymar Barros, Sérgio Raesky, Serginho - o gordo e o magro e eu, sorry! O Ateneu nunca foi convidado para desfiles de 7 de setembro nem olimpíadas da cidade. Não apenas pelo preconceito, mas todos tinham medo que aquele bando de craques e criadores desajustados roubassem os espetáculos. E roubariam mesmo!

Com o finado e saudoso Guilhermo Vale, sua guitarra sensível, Luli, Davel, Luís Paulo, Luís Roberto, o Dennis e uma trupe de funcionários e alunos, incluindo os pirralhos, foram promovidos festivais de música ao ar livre, peças de teatro e festas juninas inigualáveis. Julinho, Omar e eu, irmãos Cardoso de Mello, chegamos a estudar uns anos juntos e pegamos a era das maravilhosas irmãs Di Buriasco, da bela e doce Iony, as gêmeas Sandra e Solange e a exótica Lady Zuí , galera lá de Nogueira. Do Leno e Ana Rosa Cunha, os irmãos Quaresma, Mueller, Fares, Ligeiro, Galluzzi e paro aqui já cometendo injustiças que certamente os colegas de página no facebook haverão de corrigir, lembrar e acrescentar. Ah! E a família Simão. Inclui-se aí o falecido Dr. Edson, mas como psicólogo do SOE , pessoa e profissional da melhor qualidade.

Para organizar esta orquestra já sem muito compasso, tinha o delicado e querido Bernardo, inspetor com seu famoso “Correto?”, tentando, na maioria das vezes em vão, fazer valer alguma autoridade. Depois quando o diretor viu que a coisa estava meio fora do controle, contratou a tia Gueide. Excelente pessoa, ela veio com empáfia para ver se colava. No entanto, em dois meses já estava no ritmo da galera. E não adianta fugir à jocosidade, lá por 1975, foi contratado o Seu Peixoto, um senhor português para controlar o portão de entrada e cadernetas. Pobre velho, era feito de gato e sapato. Quanta saudade dele também. Mas que se diga, raramente faltava-se ao respeito, tudo não passava de troças ingênuas que no fim até as vítimas se divertiam muito. E saudade é o que fica em nostalgia, mas da boa, da minha parte em especial dos meus amigos Wilson Quintella e irmã, do Fábio Villa Real, do Delauro, do Pixinguinha, do Renô Raposo que morreu num desastre aos 17 anos, da Luzia, Aparecida, Mônica, Márcia, Valéria, Guaraná... E a Miriam! uma loirinha branquinha, muito gente boa! Reminiscências, saudades...

De um tempo ...De um mundo particular, de alto ritmo, magia e brandura também, como eu e Adélia, filosofando na inocência de nossos dez, onze anos de idade com maturidade e afinidade lindas ao calor daquele sol ameno, sentados defronte à quadra ou nas floreiras em frente às salas de aula nos intervalos... Em outonos e primaveras como filhos da plebe do “palácio das perdidas ilusões”... Um dia, um certo e incerto Ateneu... Ah! Só entende quem conviveu.

Themístocles Silva Neto
EX-ALUNO DE 1972/1978
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Um comentário:

  1. Atualmente, sou professor, ator e músico, com grande influência do Professor Luís Paulo, of course, my horse, e entendo que havia ideologia, sincera e honesta, por trás do produto, serviço e trabalho oferecido no Ateneu. Afinal, educar não é adestrar. Estamos lidando com seres humanos e não com animais irracionais. Hoje, entendo que se esse projeto Ateneu estivesse presente nos dias de hoje, teríamos uma escola alternativa de alto nível, comparada à Escola da Ponte de Portugal. Chega de oprimir, reprimir, limitar, descaracterizar, bitolar, emburrecer, formatar, programar, impessoalizar, anular a identidade, etc. das pessoas através da Educação. Tratamos a criançada, a garotada como coisas e bichos, e depois surge a indisciplina, e a gente fica se queixando... Não acredito que a política de não reprovar seja errada. Com trabalhos para compensar a nota, estamos educando de verdade. As nossas escolas ainda estão nos séculos XVI, XVII, XVIII, XIX, XX... O que temos de século XXI nelas? Alguma tecnologia? Computadores, softwares? Só isso? E a postura? E os espaços? E o tratamento? Está tudo vencido. A disposição das carteiras nos remete ao teatro italiano, muito útil ao Império Romano, doutrinando e programando os seus soldados somente para obedecer e não questionar. O que é isso? Uma forma ou uma fôrma de educação? Estamos humanizando ou coisificando, bestializando, animalizando a nossa "clientela"? Todos estão de acordo com a estupidez de adequar, ou melhor, moldar toda a nossa vida aos anseios da mentalidade e voracidade e maquinização reforçadas pela Revolução Industrial, que perdura até os dias de hoje? Tudo e todos são mercadoria, para o mercado?

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